O pioneirismo do álbum "Automat" (1978)

 


Muito antes de o computador se tornar um eletrodoméstico e décadas antes de os softwares de áudio digital existirem, dois músicos italianos obcecados por robótica decidiram dar voz às máquinas. O resultado dessa obsessão foi o álbum Automat, lançado pela Harvest/EMI em 1978.


Esta é a história de um disco puramente instrumental que não apenas antecipou a era de ouro do Space Disco e do Italo Disco, mas que realizou um feito de engenharia considerado impossível para a época.


O Lendário MCS70


Lançado em 1978 pela prestigiada Harvest/EMI, Automat é um álbum conceitual instrumental concebido pelos compositores italianos Romano Musumarra e Claudio Gizzi.

Claudio Gizzi e Romano Musumarra 

O álbum segue uma narrativa dividida em duas partes, a primeira no Lado A do LP onde temos uma espécie de suíte de três partes chamada "Automat", que narra sonoramente o nascimento, a ascensão e o domínio das máquinas sobre o planeta Terra. A faixa de abertura foi surpreendente para época com seu “sopro digital” e suas texturas etéreas e ao mesmo tempo ferinas.

Já o Lado B traz faixas dançantes e melódicas (como "Droid", "Automat" e "Mecano"), que se tornaram hinos das primeiras pistas de Space Disco e Italo Disco na Europa.

O álbum foi produzido gravado em 1977, no mesmo ano em que Giorgio Moroder lançava "I Feel Love" com Donna Summer. Mas lançado junto com Star Peace dos franceses da Droids em 1978. Juntos, esses trabalhos tiraram a música eletrônica do campo puramente acadêmico e a jogaram diretamente no futuro das pistas de dança, misturando a rigidez alemã do Kraftwerk com o swing dançante latinos.

Para entender o som de Automat, precisamos falar do timbre que você ouve no disco,  cada linha de baixo pulsante, cada efeito espacial, cada bip eletrônico e melodia foi gerado por um único sintetizador analógico: o MCS70 (Memory Controlled Synthesizer).


Projetado pelo lendário engenheiro italiano Mario Maggi (que mais tarde criaria o aclamado Elka Synthex), o MCS70 era uma máquina à frente de seu tempo. Ele foi um dos primeiros sintetizadores monofônicos do mundo a possuir memória programável, permitindo salvar presets de som em uma época em que cada alteração de timbre exigia cabos físicos e reajustes manuais demorados.


Mas havia um detalhe: o MCS70 era um protótipo de fabricação artesanal e era extremamente complexo e caro. Apenas uma única unidade funcional foi produzida em toda a história da música. E foi exatamente essa máquina solitária que os compositores Romano Musumarra e Claudio Gizzi usaram para gravar o disco.


Processo de Camadas e Obsessão


Como o MCS70 era um sintetizador monofônico (capaz de emitir apenas uma nota por vez), gravar um álbum inteiro com ele foi um teste de paciência digno de artesãos. Musumarra e Gizzi não podiam simplesmente tocar um acorde. Eles precisavam:


  1. Gravar a linha de baixo nota por nota em uma fita de rolo.

  2. Voltar a fita física.

  3. Gravar a melodia principal por cima.

  4. Voltar a fita novamente para sobrepor os efeitos sonoros de ruído branco e texturas.


Esse processo cansativo de gravação em multicamadas (overdubbing) deu ao álbum uma textura analógica incrivelmente crua, densa e viva. O som do MCS70 tem uma presença física avassaladora; as ondas dente-de-serra e quadradas do sintetizador cortam a mixagem com um calor orgânico que nenhum software moderno consegue replicar com perfeição.


A faixa de abertura do Lado B, a lendária "Droid", é um marco histórico. Com seu andamento galopante, percussão eletrônica hipnótica e melodias espaciais, a música serviu de inspiração direta para artistas como Jean-Michel Jarre e produtores franceses de Space Disco. Ao ouvi-la, fica claro onde os produtores contemporâneos de Synthwave buscaram a fórmula para aquelas batidas lineares que dão a sensação de se pilotar um carro sob luzes de neon à meia-noite.


Uma Relíquia Analógica


Automat permanece como uma joia rara de 16 minutos da música eletrônica espacial. O disco provou que os sintetizadores não eram apenas ferramentas para efeitos sonoros de filmes de baixo orçamento, mas instrumentos capazes de conduzir uma obras inteiras e apontar para um das futuras sonoridades da música Pop.


Ao escutar as oscilações brutas do MCS70 hoje, você está testemunhando o momento exato em que a engenharia eletrônica se fundiu à música pop para garantir que as máquinas sempre dançassem.


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